Notes on Medieval History and Others

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Jogralesas


Figura 1 - Jograis e Jogralesa tocando pandeireta
Imagem do Cancioneiro da Biblioteca Nacional

1. Apresentação e Repertório

  • Eram as actrizes medievais.
  • Faziam as vozes das mulheres nas cantigas e as reacções ao que o homem (trovador/jogral) dizia delas, dançavam, tocavam castanholas e pandeiretas e exerciam actividades histriónicas (teatro de exageros).
  • Actuavam ao lado de trovadores (poetas amadores e intérpretes) e jograis (intérpretes profissionais).
  • Ironicamente faziam interpretações delas próprias – Em cantigas escritas pelos trovadores – Parodic mimicry.
  • Eram intérpretes profissionais que dependiam do seu talento para viver.
  • Os seus espectáculos tinham um pequeno n.º de intérpretes.
  • Eram apresentações relativamente simples.
  • Tinham um papel central em espectáculos de trovadores.
  • Encorajavam a participação do público.
  • Faziam improvisação.
  • Ao contrário dos modernos actores, os jograis nunca desapareciam por detrás das personagens que interpretavam.
  • Cantigas de escárnio: Jogo dialogado de hierarquias que promove adopção da consciência de si próprio e a interpretação/performance de identidades rituais para alcançar prestígio pessoal e entreter-se a si próprio e aos outros – Negociação de identidades.
  • A vulgaridade como tema da actuação para ser ridicularizada e rejeitada.
  • O corpo é o ponto fulcral da performance – Esse corpo é pago para actuar, para evocar visualmente as imagens femininas das cantigas.
  • Movimentos corporais artificiais e enunciações verbais para alcançar fim estético.
  • O refrão das cantigas era repetido pelo público.
  • Descendentes das puella gaditanae, que traziam alegria às sobremesas romanas.
  • Repertório do Jogral:
Ø  Tocar, cantar e bailar.
Ø  Mostrar o macaco dançarino.
Ø  Malabarismo com facas e maçãs.
Ø  Recitar poemas ou contar notícias de longínquas e extraordinárias terras.
Ø  Saltar arcos.
Ø  Jogar aos dados.
Ø  Tocar 9 instrumentos – Tambor, castanholas, cítola, rota, etc.
Ø  Manejar fantoches.
Ø  Por barbas vermelhas.
Ø  Imitar o canto dos pássaros.
Ø  Saber literatura clássica antiga.
Ø  Histórias da bíblia e dos santos.
Ø  Lendas e narrativas piedosas

·         Nas cortes dos primeiros reis de Portugal não existiam ainda bobos da corte, eram os jograis, trovadores e segréis que animavam a corte (até à decadência da poesia trovadoresca).
  • Andavam de feira em feira, cidade em cidade ou actuavam fixamente nas cortes.
  • Em espaços abertos, fechados, tavernas, etc.
  • Muitas delas viviam com uma criada; E tinham serviçais que as acompanhavam para onde fossem e que lhes ajudavam a guardar e conservar as roupas e ajudavam na preparação da sua apresentação.
  • Os bons jograis costumavam trajar roupas vistosas. Aqueles que trabalhavam na corte utilizavam às vezes uma espécie de uniforme, vestindo todos os mesmos tecidos e cores.
  • Segundo Carolina Michaëlis, habitualmente transportavam consigo a maleta das alfaias.
  • Panaderas” – Vendiam pão nos mercados e actuavam – oradoras de mercado.
Ø  Também eram consideradas prostitutas.
Ø  Mulheres perigosas, dominadoras através das palavras, que têm o poder de interpelar e controlar os seus clientes masculinos.
Ø  Solistas.
Ø  Faziam caricaturas da nobreza de Castela e Aragão.
Ø  Imitavam um cavaleiro ou prelado em cada actuação, narrando as suas palavras e acções – Personificação masculina, imitação das palavras, gestos e comportamentos da elite masculina.
Ø  Ridicularização e degradação da nobreza.
Ø  Também não desapareciam por detrás das personagens que imitavam.
Ø  Personificavam os seus superiores, de classe superior à sua.
Ø  A sua actuação era feita para agradar às classes mais baixas ou mais altas, consoante o espaço em que se encontravam.
Ø  A panadera conta a história como se tivesse lá para a testemunhar (eu vi…): Ela vê as personagens que imita, eles não a viam a ela.
Ø  O seu poder deriva não do seu belo corpo, mas dos seus olhos atentos e da sua capacidade oral e do seu amor por actuar em público.

  • Serranas – Pastoras ou vaqueiras que cantavam e dançavam – Personagens fictícias criadas por homens. 


2. Má Fama

  • Também chamadas de "Soldadeiras" porque dançavam a troco de "soldo", "vendilhonas de amor" e "mulheres de vida alegre".
  • Numa sociedade altamente preconceituosa, eram consideradas como prostitutas, apenas porque actuavam em público e a troco de dinheiro, pois as mulheres da época deviam ser crentes e recatadas e estar sob custódia dos seus maridos ou do pai.
  • E também porque actuavam próximo do público, pelo que havia a possibilidade de serem tocadas.
  • Uma jogralesa, que se exibia em público, era considerada uma mulher muito pouco decente, sobretudo por juristas e teólogos.
  • As prostitutas não tinham honra, logo não podiam ser desonradas física ou psicologicamente - Por isso a soldadeira não podia procurar ajuda legal se sofresse algum destes males. O único recurso que tinham era a vingança pessoal.
  • As suas actuações com raiva eram a sua única defesa.
  • A estrutura legal permitia e até encorajava assaltos a prostitutas para as punir pelo comércio sexual.
  • As prostitutas tinham de usar um certo corte de cabelo para serem reconhecidas.
  • O facto de elas fazerem “negócios” com todos os credos religiosos, cristãos, judeus e árabes, etc., promovia a colaboração e comunicação entre eles – Todos as consideravam seres inferiores.
  • Eram economicamente independentes e tinham acesso a espaços sociais de elite, o que na altura era uma excepção.
  • Alguns homens chegavam mesmo a invadir as casas das mulheres que viviam sozinhas e violavam-nas só para provar que elas sem homens não eram nada.
  • Consideradas como fontes de poluição pelos seus gestos imodestos.
  • Se algumas jogralesas eram mesmo prostitutas, era porque provavelmente não tinham outro remédio, dado que a sociedade as marginalizava, se enquanto jogralesas recebiam pouco, teriam de arranjar outra forma de sustento.
  • Pouco sabemos sobre a sua arte, sobre as suas actuações, mas existem inúmeras cantigas de escárnio e mal-dizer sobre a sua (suposta) vida sexual;
  • As mulheres medievais eram vistas a partir de modelos pré-determinados pelos homens.
  • Marginalidade errante entre minorias muçulmanas e judaicas ou alvo de apadrinhamento por parte de monarcas e nobres.
  • A mais famosa soldadeira é Maria Peres Balteira, alvo de inúmeras sátiras – Cortesã da corte de Afonso X.
  • Aproximadamente cinco dezenas de cantigas são sobre soldadeiras: 10% do total de 474 cantigas do Corpus Satírico.
  • Ironicamente, o estado de degradação das soldadeiras tornava-as mais desejáveis (as mulheres honradas estavam sexualmente fora do alcance).
  • Ás vezes eram contratadas para a corte e recebiam um ordenado fixo.
  • Foi feita uma lei que as proibiu de permanecerem mais do que três dias seguidos nos Paços, mas parece que não era muito cumprida.
  • A presença das soldadeiras na corte introduzia um elemento de degradação que os poetas usavam para afastar as restrições da cultura da corte.
  • Muitas vezes os próprios monarcas as contratavam para actuar nas festas da corte.
  • Recebiam muito menos que os seus colegas homens, às vezes 15 vezes menos! Mas algumas recebiam 50% mais que outras.
  • Seriam hoje equivalentes a "Vedetes"! As jogralesas eram grandes mulheres, que ousavam dedicar a sua vida à arte, numa sociedade que as desprezava e maltratava.

Bibliografia:
·  Azevedo, Filipe - O teatro pré-vicentino in http://www.malhatlantica.pt/drfilipeaz/PagsParali/LP/TeatroPre-Vicentino.pdf;  
·     Barros, José d'Assunção - A prostituta como agente de circularidade no trovadorismo ibérico (séculos XIII e XIV) in http://www.prodema.ufpb.br/revistaartemis/numero2/arquivos/artigos/artigo_jose.htm
·      Duby, Georges e Perrot Michele - História das Mulheres no Ocidente, vol. II - A Idade Média,  ed. Afrontamento, 1994;
·      Ferreira, Ana Paula - A outra "arte" das soldadeiras - Luso-Brazilian Review © 1993 University of Wisconsin Press. http://www.jstor.org/pss/3514209;  
·     Filios, Denise K. – Performing Women in the Middle Ages, Sex, Gender and The Iberian Lyric, ed. Palgrave, 2005.
·       Marques, A.H. de Oliveira - A Sociedade Medieval Portuguesa, Sá da Costa Editora;
·     Marques-Samyn, Henrique - TROVADORES, JOGRAIS E SOLDADEIRAS: FIGURAS DO TROVADORISMO GALEGO-PORTUGUÊS (III) in http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=1964;
·         Muniz, Márcio Ricardo Coelho – “Vós, que conhecedes a mim também”- As Soldadeiras.
·         Saraiva, António José - História da Cultura em Portugal;
·         Vasconcelos, Carolina Michaelis de - Cancioneiro da Ajuda; -
·         A Sátira na Literatura Medieval Portuguesa – Biblioteca Breve, vol. 8, Instituto da Cultura Portuguesa, 1977.
  

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