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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Grandes Mulheres da História: D. Teresa de Leão e Castela



·      D. Teresa era filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela e de Ximena Nunes. Pensa-se que terá nascido entre 1078 e 1079. Foi criada junto com a irmã Elvira. 

·   Casou-se por volta do ano de 1095 com D. Henrique, quarto filho do duque da Borgonha, recebendo este o condado portucalense como dote e feudo. A partir desta data Teresa surge ao lado do marido nos documentos que este confirma com Afonso VI. Nos primeiros anos de casados os dois viveram na corte leonesa, embora confirmassem diplomas relativos às terras portuguesas. Os seus colaboradores foram aumentando e aos poucos foram-se aproximando de várias instituições religiosas, com vista a obter o seu apoio no plano político. 

·       Nos primeiros quatro anos de casamento nasceram três filhas: Urraca, Sancha e Teresa. Afonso Henriques nasceu mais tarde, em 1109, quase pela mesma altura em que morreu Afonso VI. 

·  Teresa e Henrique pretendiam a autonomia do condado em relação ao pai/sogro, especialmente quando este escolheu para sua sucessora D. Urraca,  única filha legítima, com a condição desta se casar com Afonso de Aragão.

·   Os condes continuaram a recompensar generosamente todos os que os apoiavam e a outorgar cartas de foral a povoações estrategicamente localizadas, ficando estas ligadas por laços de vassalagem. No segundo semestre de 1110 os documentos da chancelaria são unicamente assinados por Teresa, uma vez que D. Henrique estava na guerra, tentando esta sempre exercer um controlo especial sobre a Sé de Braga.

·    O reinado de Urraca foi conturbado e conflituoso, de desentendimento total entre esta e o novo marido, dando origem a um verdadeiro cenário de guerra civil entre os nobres leoneses, castelhanos, aragoneses e galegos. Na tentativa de obter concessões de ambos os lados, D. Henrique não se comprometeu com nenhum interveniente, começou por se aliar ao rei de Aragão, mas posteriormente aliou-se à cunhada. 

·   Em Setembro de 1111 Afonso Raimundes foi coroado rei da Galiza, o que incluía o Condado Portucalense. 

·    Teresa, demonstrando o quanto estava convencida da legitimidade dos seus direitos a parte da herança do pai, continuou a pressionar a imã a dividir o reino. D. Teresa queria reter Zamora, Salamanca, Ávila e a província da Estremadura, na posse do seu marido. 

·       À morte do conde, em 1112, D. Teresa ficou a governar o condado. 

·    A Galiza era dominada pelo arcebispo Diego Gelmírez de Compostela e pelo tutor de Afonso Raimundes, Pedro Froilaz de Trava, rodeado de uma importante nobreza. A rainha D. Urraca, tentou não perder autoridade e fez aliança ora com uns, ora com outros. 

·    Os barões portucalenses queriam a completa autonomia do condado em relação à Galiza, os magnatas Galegos, pelo contrário, queriam a sua reunificação. 

·     Duas mulheres passaram então a partilhar o poder e dividiram entre si territórios com uma desenvoltura e ambição que se acreditava não ser possível ao sexo feminino. Relação pautada pela ambição e interesse político, pela união de interesses umas vezes, mas na maior parte pelo afastamento e confronto. 

·  D. Teresa prosseguiu a sua política de captação de territórios, outorgando bens e privilégios a pessoas influentes das suas terras. 

·    Até 1121, D. Teresa satisfez as pretensões dos barões portucalenses e manteve-se sozinha. Nos dezasseis anos que acompanhou o governo do marido adquiriu experiência e astúcia. 

·     Entregou o infante herdeiro à criação da família Riba Douro, como era costume na época, e dedicou-se ao governo. Os documentos passaram a ter a sua assinatura enquanto filha do "grande rei e imperador" Afonso VI. 

·    Enquanto Teresa governava as suas terras em paz, continuava a guerra civil entre a irmã e o cunhado, na Galiza. D. Teresa começou então uma complexa política de alianças com o objectivo de reforçar a sua posição perante a irmã. 

·       Foi num dos confrontos armados contra a irmã que Teresa iniciou o seu relacionamento com a família Trava. 

·       Fernão Peres e Bermudo vieram posteriormente auxiliar a condessa na defesa da cidade de Coimbra contra os almorávidas. 

·         A vitória contra os muçulmanos e os importantes apoios obtidos, nomeadamente, uma carta do papa Pascoal II dirigida à "rainha Teresa", terão talvez contribuído para que, a partir de Maio de 1117, passasse a assinar os documentos com o título de rainha. 

·    D. Urraca não aceitou este novo título da irmã, porque só ela era rainha, e também porque a aliança que fizera com o filho não estava a correr muito bem.

·      Em Junho de 1118, Urraca nomeia Paio Mendes para novo arcebispo de Braga. 

·       Em Novembro Teresa apoiou a confirmação do sobrinho de dois homens, numa cidade pertencente a Urraca, 

·      O papa Calisto II, cunhado de Urraca, elevou Compostela a arcebispado, em detrimento de Braga. 

·     Em 1120/21, D. Urraca e Gelmírez invadiram o Condado Portucalense, obrigando D. Teresa a refugiar-se no Castelo de Lanhoso, 10 quilómetros a norte de Braga, mais tarde esta fez uma doação à igreja daquele local.

·     Alguns historiadores consideram que foi por esta altura que os barões portucalenses se começaram a afastar, pois a condessa tinha-se apoderado de território fora da sua jurisdição e tinha-se oposto à mão armada aos reis de Leão e Castela, a quem devia prestar vassalagem, incorrendo no crime de felonia e deitando a perder os direitos senhoriais de Portugal.

·  Quanto aos Trava, Teresa teria conforto em ter o apoio desta poderosa família, especialmente quando a sua autoridade era posta em causa. Ambas as partes ambicionavam chegar ao governo de uma Galiza unida e independente de Leão e Castela – Os Trava eram assim elevados ao nível da filha do poderoso Afonso VI e Teresa ganharia com esta união mais poder e autoridade.

·     Surge em primeiro lugar a sua ligação (não se sabe se casamento) a Bermudo Peres de Trava e em 1121 surge em documentos ligada ao irmão, Fernão Peres de Trava.

·     A pouco e pouco, a nobreza de Entre Douro e Minho foi-se afastando da condessa – O primeiro grupo saiu a partir de 1122, dois anos após a entrada de Fernão Peres na corte. Três anos depois houve mais deserções, o que levou ao isolamento de D. Teresa e dos Trava.

·     Não se sabe exatamente o porquê deste descontentamento, mas pensa-se poderá ter sido pelos poderes dados por D. Teresa ao conde de Trava ou porque o mesmo excluiu estes senhores da chefia no combate ao islão retirando-lhes consequentemente as vantagens materiais e simbólicas.

·    Os nobres portucalenses deveriam assim sentir-se preteridos em favor dos galegos e assim acharam que a única solução era apoiarem os direitos de chefia do condado do único filho varão do conde D. Henrique, o jovem Afonso.

·     Urraca morre em 1126 e Teresa invade os lugares limítrofes da Galiza, submetendo-os violentamente ao seu poder. Assinou então um acordo de paz com Afonso VII de Leão e Castela, no qual o sobrinho lhe concedeu o título de “Regina Portugalinsium”, em troca do reconhecimento da sua coroação.
   
·       Embora admitindo a paz, Teresa fez presumir que não reconhecia a autoridade do novo rei da Galiza, aproveitando um conflito entre este monarca e Aragão, Teresa passou as suas tropas para norte do Minho para defender os seus domínios na Galiza.

·       Recusou vassalagem ao sobrinho, o que levou este, em 1127, a fazer o conhecido cerco a Guimarães, culminando na vassalagem de Afonso Henriques.

·       Mas a paz voltou, pois em 1127, Teresa e Fernão foram assistir ao casamento de Afonso VII com Berengária de Barcelona. E em 1128 confirmou um documento do sobrinho.

·      D. Teresa terá tentado obter o apoio de Afonso VII contra os nobres portucalenses, mas este não terá aceite, pois a condessa pretendia o governo  da Galiza, que lhe pertencia, enquanto Afonso Henriques já lhe tinha prestado vassalagem.

·     A 24 de Julho de 1128, deu-se a já sobejamente conhecida batalha de S. Mamede, onde D. Afonso Henriques, encorajado pelos nobres portucalenses, retirou o poder do condado das mãos da mãe.

·    D. Teresa vê-se assim obrigada a desistir do sonho de governar um reino unido que englobasse a Galiza e Portugal e abandona o condado, junto com Fernão Peres e as duas filhas pequenas de ambos, Sancha e Teresa Fernandes, passando a viver em Límia na Galiza.

·      Terá falecido dois anos após a batalha, em 1130. Documentos (confirmações de doações) provam que Afonso Henriques se terá reconciliado com o conde de Trava ainda antes da morte da condessa.

·        D. Teresa encontra-se sepultada na Sé de Braga, junto do conde D. Henrique.

·    D. Teresa é geralmente considerada negativamente pela cronística e geralmente vista como a mulher que preteriu o filho em favor do amante. No entanto não nos podemos esquecer que na sua maioria, as crónicas medievais são propositadamente desfavoráveis às mulheres, especialmente às que ousavam exercer o poder político que, se considerava na altura ser apenas destinado aos homens. As crónicas são também na sua maioria escritas por clérigos, que tinham uma sobejamente conhecida aversão ao sexo feminino, fonte de todo o pecado, ora Teresa ousou até enfrentar o Arcebispo Gelmírez! A imagem negativa de Teresa foi sobretudo concebida já no século XIII, sobretudo com a Lenda de Egas Moniz, texto que enaltecia a proteção dada ao infante pela nobreza portucalense opondo-a à mãe tirana que mal o assistiu nos primeiros anos de vida.  

·   Assim, de condessa corajosa que assumiu, à morte do marido, a chefia do condado, Teresa passou a mãe desnaturada que queria roubar ao próprio filho a herança paterna! E tudo isto apenas pelas suas relações com os Trava. Assim, o poder de uma mulher e mãe será domesticado e substituído pela virilidade da dinastia afonsina.

·    D. Teresa e D. Urraca lutaram até ao fim pelo poder, que foi também a causa da sua rivalidade. Eram orgulhosas, ambiciosas, inteligentes e astutas e foram, após as mortes dos respetivos maridos capazes que governar, o que só aos homens competia. Desafiaram convenções e puseram em causa estereótipos de comportamento da mulher medieval. Foram por isso grandes mulheres e a sua memória merece ser restaurada.

·   E ousamos relembrar, que, Afonso Henriques não saiu apenas ao pai quando quis tomar para si o poder do condado, o sangue fervoroso de D. Teresa também lhe corria nas veias!


Bibliografia: Oliveira, Ana Rodrigues de – Rainhas Medievais de Portugal, Esfera dos Livros, 2010.




terça-feira, 23 de julho de 2013

Urraca de Castela, a Terceira Rainha de Portugal

- Nasceu entre 1186 e Maio de 1187 e era a quinta filha de Afonso VIII de Castela (Batalha de Navas de Tolosa) e de Leonor de Inglaterra (Plantageneta - filha de Henrique II e de Leonor da Aquitânia), num total de onze.
- A sua irmã mais velha Berenguela, foi rainha de Leão, regente de Castela na menoridade do irmão e rainha-mãe com a ascensão do seu filho Fernando ao trono de Leão e Castela.  
- Foi, a partir dos dois anos sucessivamente prometida em casamento, por seu pai, a príncipes de ilustríssimas estirpes régias: Afonso IX de Leão (1188), Luís VIII de França (antes de 1200 – com quem acabou por casar a sua irmã Branca, em sua substituição, alegadamente devido à estranheza do nome Urraca!), Pedro II de Aragão e por fim o infante herdeiro de Portugal.
- Viveu dois importantes momentos da política castelhana: A derrota de Alarcos em 1195 e a vitória de seu pai em Navas de Tolosa (1212, já rainha de Portugal).  
- Foi a primeira castelhana a tornar-se rainha de Portugal e uma das últimas senhoras de estirpe régia a ostentar o nome Urraca. Com ela se iniciou uma política de alianças com Castela.
- O casamento com D. Afonso II foi celebrado entre Novembro de 1208 e Fevereiro de 1209.
- Alguns nobres e eclesiásticos não ficaram contentes, pois teriam laços familiares e de dependência com leão.
- Teriam ambos 22 anos (o que era tarde para a época). Essa idade deu-lhes certamente alguma voz no processo. Não se sabe se Urraca sabia da doença do marido antes do casamento.
- O parto de Sancho foi razão mais que suficiente para desanuviar a grave crise política da corte de D. Sancho I (desde 1209) congraçando o partido em torno da linhagem régia.
- Ao tornar-se rainha, Urraca já era pois mãe do infante herdeiro e essa qualidade reforçaria a sua posição na corte.
- Foi rainha desde 1211, quando o infante subiu ao trono, até à sua morte, a 3 de Novembro de 1220, aos 34 anos, pela mesma altura chegavam a Coimbra os mártires de Marrocos, religiosos Franciscanos cujo martírio ocorrera a 16 de Janeiro. D. Pedro, seu cunhado, que testemunhara o martírio, enviara as relíquias.  
- Os seu últimos anos devem ter sido mais estáveis, sobretudo entre 1216 e 1219, pois já tinha dado ao reino mais dois herdeiros masculinos.
- A D. Urraca pertenciam os senhorios de Torres Vedras, Óbidos e Lafões.
- Fez o seu testamento em 15 de Julho de 1214, pouco tempo depois perdeu ambos os pais ,no espaço de apenas um mês, quando o seu irmão Henrique, herdeiro de Castela, tinha apenas 10 anos.    
- A sua cunhada, Mafalda, viria subir ao trono de Castela, a seguir à sua mãe, ao casar com o seu irmão Henrique I, em 1214, embora por apenas um ano, devido à tenra idade do noivo.
- Teve quatro filhos: Sancho II (1210-1248), Leonor (1211-1231), Afonso III (1216/17- 1279), e Fernando (1218-1246).

- Jaz no Mosteiro de Alcobaça. Para onde se deslocou o panteão dos reis de Portugal do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.  


Bibliografia: Colecção Rainhas de Portugal do Círculo de Leitores, vol. II: As Primeiras Rainhas - Marques, Maria Alegria Fernandes Marques et al.- Maio de 2012; Rainhas Medievais de Portugal, Oliveira, Ana Rodrigues - Esfera dos Livros, Novembro de 2010. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Rainhas de Portugal Medieval e sua Descendência

(ordem decrescente do maior n.º de filhos)

1. Dulce de Barcelona (Sancho I) - 11, 12 (ou 15) filhos - Viveu 38 anos.
2. Leonor de Aragão (Duarte I) - 9 filhos - 35 anos?. 
3. Beatriz de Castela (Afonso III) - 8 filhos - 59 anos.
4. Filipa de Lencastre (João I) - 8 filhos - 55 anos. 
5. Mafalda de Sabóia (Afonso Henriques)- 7 filhos - 32 ou 33 anos. 
6. Beatriz de Molina e Castela (Afonso IV) - 7 filhos - 66 anos. 
7. Urraca de Castela - 4 filhos (Afonso II) - 33 anos. 
8. Constança Manuel (Pedro I) - 4 filhos - 31 anos. 
9. Inês de Castro (Pedro I) - 4 filhos - 30 anos. 
10. Matilde de Bolonha (Afonso III) - 4 filhos (2 de cada casamento) - 60 anos. 
11. Leonor Teles (Fernando I) - 3 filhos (dois do primeiro casamento e um do segundo) - 55 anos. 
12. Isabel de Lencastre (Afonso V)- 3 filhos - 23 anos. 
13. Isabel de Aragão (Dinis I) - 2 filhos - 60 anos.
14. Mécia Lopes de Haro (Sancho II) - 0 filhos - 56 anos. 
15. Joana de Castela (Afonso V) - 0 filhos - 68 anos.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dulce Berenguer de Barcelona (ou de Aragão) - A Segunda Rainha de Portugal




  • Dulce de Aragão ou Dulce Berenguer de Barcelona, filha da rainha Petronilha de Aragão e do Conde de Barcelona Raimundo Berenguer IV (e irmã de Afonso II de Aragão, que chegara a estar noivo da princesa Mafalda, irmã de Sancho) nasceu em 1160.
  • Quando se casou com Sancho I, teria catorze anos, nos finais de 1174 e o príncipe teria vinte.  
  • Tal aliança permitiria consolidar as bases de uma união que pudesse defrontar as pretensões expansionistas de Leão e manter Castela na esfera da amizade com Portugal.
  • Antes da união, foram investigados os laços de parentesco entre os dois esposos para que este casamento não viesse a ser anulado como aconteceu com o casamento da irmã mais velha de Sancho, D.Urraca Afonso com Fernando II de Leão, em Maio de 1175 (salvaguardando no entanto os direitos do herdeiro).
  • Nos diplomas, o nome de Sancho abandona o sinal rodado que partilhava com o pai, desde 1169 e começa a partilhá-lo com a sua mulher. Afonso Henriques passa a aparecer associado ao nome da filha Teresa. 
  • A rainha terá trazido no seu séquito várias pessoas, homens e mulheres de Aragão que permaneceram junto de si, nomeadamente D. Toda Palazins e provavelmente Aldonça, que seria talvez sua afilhada. 
  • Tinha um notário, o presbítero Pedro Homariz que escreveu o foral de Penacova e que provavelmente escreveria cartas para Aragão ditadas pela mesma.
  • Tinha bens próprios, uma longa lista de propriedades, nomeadamente em Alenquer, na Beira, Lourosa, etc. 
  • No seu primeiro testamento, Sancho atribuía-lhe rendas de Alenquer, da Terra do Vouga, da de Santa Maria e do Porto, e crê-se que a Rainha as gozou na plenitude, pois há notícia de a mesma ter interesses na vila de Alenquer. 
  • Terá vivido a maior parte do tempo em Coimbra, no paço régio, na alcáçova da cidade. Mas conheceria Alcobaça, Porto, Guimarães, Braga, talvez Lisboa e as terras do Douro e da Beira. 
  • É a primeira Rainha de quem se conhece a outorga de documentos de gestão do reino (três): o foral de mortágua, uma carta de privilégio e uma confirmação de privilégio. 
  • Há a hipótese de o foral (1192) ter sido emitido por D. Dulce porque o rei estava doente e a mesma tomou as rédeas da governação do reino. 
  • No seu primeiro testamento, Sancho nomeou Dulce como sua testamenteira, ao lado de importantes personalidades do reino.
  • Realizou várias obras de caridade e penitência. 
  • Doou um cálice de prata dourada e pedras preciosas ao Mosteiro de Alcobaça. 
  • Em conjunto com o marido ofereceu um outro cálice ao Mosteiro de Santa Marinha da Costa, em hora de sua sogra, a rainha Mafalda de Sabóia, considerada a fundadora do Mosteiro. 

  • Em 1176 nasce o primeiro rebento da união, Teresa Sanches. Nos restantes anos de matrimónio Dulce daria à luz pelo menos onze ou doze filhos (cinco/seis filhos e seis filhas): D. Teresa (1176), D. Sancha (1180), D. Constança (1182), D. Afonso II (1186-Abril), D. Henrique (1187-Abril?), D. Pedro e D. Fernando (1188-Março?),  D. Henrique (1190?-Julho), D. Raimundo e D. Mafalda (1195?), D. Branca e D. Berengária (1196). 
  • Não se sabe se existiram um ou dois infantes de nome Henrique, e as datas em que aparecem os nomes dos infantes nos documentos régios pela primeira vez são contraditórias, por ex. não podia biologicamente a rainha entre Abril de 1186 e Março de 1188 ter dado à luz quatro filhos, a não ser que dois deles fossem gémeos.
  • Assim como dificilmente teria dado à luz D. Raimundo e D. Mafalda no mesmo ano, a não ser que também fossem gémeos ou tivessem nascido um no princípio e outro no fim do ano. 
  • De todos os filhos, três ou quatro morreram ainda crianças (Constança, dois Henriques e Raimundo).
  • Três foram posteriormente beatificadas pela igreja Católica (Teresa, Sancha e Mafalda). 
  • Três foram rainhas (D. Teresa, D. Berengária e D. Mafalda). 
  • Um foi rei de Portugal - Afonso II
  • Dois foram governantes de espaços importantes da Cristandade - D. Fernando da Flandres e Hainaut e D. Pedro de Maiorca e Ibiza.
  • Há no entanto alguns indícios de que a rainha possa ter dado à luz mais três filhos, (D. Maior, D. Dulce e D. Nuno) perfazendo um total de quinze. 
  • Onze ou doze ou quinze filhos num casamento que durou vinte e quatro anos é de assinalar. 
  • É por isso conhecida como "A Rainha Fecunda". 
  • Os infantes tornavam-se peças essenciais da estratégia política - A primeira geração europeia de Infantes de Portugal. 
  • Alguns autores defendem que D.Sancho e D. Dulce, apesar do casamento ter sido combinado, amavam-se de verdade, pois tão extensa prole e ausência de notícia de amantes durante o casamento parece ir muito para além da obrigação de gerar herdeiros. 
  • Sofreu com as ausências do marido, constantes gravidezes e complicados partos, surtos de fome e peste e epidemias que terão prejudicado a saúde do futuro Afonso II, rei leproso.
  • Provavelmente a rainha também terá morrido de peste, num corpo enfraquecido pelos muitos partos, em 26 de Setembro de 1198, em Coimbra, aos trinta e oito anos e foi sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, junto dos sogros e mais tarde do marido. 
  • Depois da morte da rainha, Sancho envolveu-se com Maria Pais Ribeira (ribeirinha) e Maria Aires de Fornelos, das quais teve mais oito filhos. 

    Bibliografia: Branco, Maria João Violante Branco - D. Sancho I, Temas e Debates 2010; Marques, Maria Alegria Fernandes - Dulce de Aragão, a Rainha Fecunda, Ed.Quid Novis e Autores 2011, Colecção do Correio da Manhã; Oliveira, Ana Rodrigues de - Rainhas Medievais de Portugal, Esfera dos livros, 2010.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Mafalda de Saboia - A Primeira Rainha de Portugal


  • Mafalda, era filha de Amadeu III, conde da Saboia, Piemonte e Maurienne (englobava os actuais Saboia na França e Piemonte, na Itália) e da condessa Matilde (ou Mahaut) d'Albon e nasceu por volta do ano de 1125.
  • Existe uma querela doutrinária quanto ao facto de o primeiro rei de Portugal ter desposado uma donzela vinda de tão longínquo reino, mas quer tenha sido por imposição, sugestão ou por decisão, considera-se que a principal razão para tal casamento foi o desejo de independência política e de distanciamento em relação ao seu primo, Afonso VII de Espanha.
  • Na época considerou-se, erradamente, que Afonso Henriques casou com alguém de condição inferior, por Mafalda ser apenas filha de Condes, mas ela era também sobrinha do Rei Luís VI de França, um dos mais importantes e poderosos reis do ocidente Cristão. Para além de que seu pai era um importante apoiante das Cruzadas.
  • O contrato de casamento foi celebrado quando ela tinha 12 anos e Afonso Henriques 30. Mas o casamento só foi celebrado 9 anos mais tarde, tendo ela 21 e ele 36.
  • Dúvida-se se o seu nome seria Mafalda ou Matilde. Alguns consideram que se chamava Mahaut (Matilde) como a mãe e que depois ao chegar a Portugal mudou de nome para Mafalda. Nos diplomas públicos o nome da soberana figura como Mahada, que seria tradução de Mahaut, o nome com que nasceu.
  • Deparou-se com um homem 18 anos mais velho, já com dois filhos de outra mulher (Châmoa Gomes, que era descendente dos Trava, viúva com três filhos e freira) que pelo que se dizia, ele amava há quase 10 anos, mas com quem não pôde casar, pois pela independência do reino, Afonso Henriques devia assumir-se como um monarca Católico e bem comportado aos olhos da Santa Sé. 
  • Em doze anos de casamento, Mafalda deu à luz, pelo menos sete filhos :
  1. Henrique (1147)
  2. Urraca (1148)
  3. Teresa (1151)
  4. Mafalda (1153)
  5. Martinho (1157) depois chamado Sancho com a morte do irmão mais velho aos 8 anos.
  6. João (1156)
  7. Sancha (1157).
  • Criou junto com os seus os filhos ilegítimos do rei. Morreu dez dias após o nascimento da última filha, que quase não chegou a ver. Dos sete filhos, à idade adulta chegaram apenas três: Sancho, Teresa e Urraca.
  • Pouco se sabe sobre a personalidade da rainha. Há documentos, escritos por religiosos da época, em que se conta que estando a soberana num dos seus complicados partos, entre a vida e a morte, mandou chamar o padre Teotónio, prior do mosteiro de Santa Cruz, acreditando que com a sua bênção tudo se resolveria. Facto é que assim aconteceu e logo que se restabeleceu a rainha quis ir ao mosteiro agradecer a intervenção divina, o que lhe foi vedado, pois o prior fugia das mulheres como se fossem inimigas e invocou ser aquele um lugar de reclusão de homens. Mafalda ao que consta ficou furiosa e tentou impor o seu estatuto de rainha, mas não conseguiu entrar, pois D. Teotónio recusou-se a infringir a regra do mosteiro.
  • Alguns dizem então que ela teria mau feitio e que seria causado pela infelicidade do seu casamento e pela morte do primeiro filho.
  • Outros consideram que tal não faz sentido pois tendo em conta as mentalidades da época, a maioria dos autores religiosos faziam referencias muito pouco lisonjeiras a mulheres que de algum modo ousavam enfrentar o poder, a mulher era considerada  a principal fonte de pecado para os homens, especialmente religiosos.
  • O conceito de relacionamento no século XII  também não era o mesmo que nos dias de hoje, os casamentos eram uniões decididas entre as casas reais com o objectivo de reforçar ou criar alianças político-militares, o amor era algo à parte e seria apenas fruto de convivência entre duas pessoas que eram obrigadas a viver juntas. Por isso a maioria das esposas sabia da existência das amantes dos maridos, assim como dos seus pais. Criavam os bastardos reais, assim como antes tinham sido criadas com os irmãos bastardos.
  • Havia uma vulgarização da mancebia. Não seria agradável, mas seria mais tolerado do que hoje em dia.
  • Alguns autores consideram que a infelicidade de Mafalda também poderia estar ligada ao temperamento violento de D. Afonso Henriques, que chegou mesmo a ser caracterizado como "frio e seco". Existe até uma lenda segundo a qual ele teria morto a mulher grávida ao pontapé, por ciúmes. Não é considerada de todo verdade, mas revela a fama de homem duro que D.Afonso Henriques tinha.
  • São atribuídas a D.Mafalda, educada sob influência da Ordem de Cister, muitas fundações de piedade e penitência, como o Mosteiro da Costa, em Guimarães e o hospital/albergaria de Marco de Canavezes.
  • "Diz-se que o nome “Marco de Canaveses” virá de um dia, quando a Rainha D. Mafalda, acabara de passar pelas obras da ponte que mandara construir para a travessia do rio Tâmega, e cheia de sede, pediu água aos pedreiros. Como o acesso ao rio era muito difícil, um deles ofereceu uma cana para que a rainha bebesse directamente do rio. A rainha ao devolve-la terá dito “Guardai-a porque a cana às vezes é boa”.
  • Assegurou a comunicação entre diversos povoados, nomeadamente uma ponte sobre o rio Tâmega e outra sobre o rio Douro, em Mesão Frio.
  • Proporcionou ainda a travessia desse rio através de dois barcos que mandou para Moledo e Porto de Rei.
  • Faleceu a 3 de Dezembro de 1157 ou 1158, com apenas 32 ou 33 anos, em Coimbra, sendo sepultada na igreja do mosteiro de Santa Cruz junto do marido, que ainda viveu mais 27 anos.
  • Só no século XVII voltará a acontecer uma união entre as casas de Portugal e da Saboia, quando Maria Francisca Isabel se casar com Afonso VI.


Bibliografia: Mattoso, José - D. Afonso Henriques, Temas e Debates; Oliveira, Ana Rodrigues de - Rainhas Medievais de Portugal; esfera dos livros, 2010; Natário, Anabela - Portuguesas com História, Temas e Debates, 2008; A Lenda de Marco de Canavezes in Blog "Marcoense como Nós" http://marcoensecomonos.blogspot.com/2010/05/lenda-de-marco-de-canaveses.html.

sábado, 2 de maio de 2009

Afonso IV – Introdução: Parte II: A Rainha D. Beatriz de Castela

  • Subiu ao trono em 1325;
  • D.Beatriz teve uma participação de relevo em alguns acontecimentos que marcaram a vida política do reino:
  1. Fundou um hospital na alcáçova de Lisboa, em 1329;
  2. Em 1336, num momento de conflito aberto entre o seu marido e o seu sobrinho-genro, Afonso XI, dirigiu-se a Badajoz para ter com este último, para por fim às hostilidades entre os dois reinos;
  3. No seguimento do assassinato de Inês de Castro, a rainha teve um papel decisivo para que o marido e o filho fizessem as pazes;
  4. A actuação da rainha pressupunha uma autoridade e um conjunto de meios enorme para poder ser ouvida pelas partes. Por aí podemos ver que D.Beatriz tinha uma grande influência política;
  5. Em 1348, escreveu aos juízes de Almada ordenando que fosse levantada uma excomunhão;
  6. A rainha possuía uma estrutura organizada e meios para uma actuação senhorial, tinha “ouvidores” ou seja magistrados que ouviam as partes e preparavam a decisão a tomar;
  7. Acumulou muitas jóias e objectos valiosos ao longo da vida;
  • Deste casamento nasceram sete filhos:
  1. 1313 – D.Maria (casou em 1328 com o rei de Castela Afonso XI)
  2. 1315 – D.Afonso (morreu pouco depois)
  3. 1317 –D.Dinis (faleceu com 1 ano)
  4. 1320 – D.Pedro (Sucessor do trono)
  5. 1324 – D.Isabel (não ultrapassou 1 ano)
  6. 1326 – D.João (não ultrapassou 1 ano)
  7. 1328 – D.Leonor (casou em 1347 com Pedro IV de Aragão, faleceu 1 ano depois).

Bibliografia: Sousa, Bernardo Vasconcelos e - D.Afonso IV, Temas e Debates

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Afonso IV - Introdução

  • Afonso, filho dos reis D.Dinis e D.Isabel, nasceu em Coimbra, no dia 8 de Fevereiro de 1291 e tinha uma irmã mais velha um ano, Constança.
  • Pouco se sabe sobre a sua infância. Supõe-se que terão havido grandes festejos por ocasião do seu nascimento e que terá sido baptizado na Igreja de S.Pedro, em Coimbra;
  • Supõe-se ainda que terão sido responsáveis pela sua educação Martim Gil de Riba de Vizela, conde de Barcelos e alferes-mor do reino, nomeado por D.Dinis como aio do príncipe e o arcebispo de Braga. D.Martinho de Oliveira;
  • Tais atribuições teriam sobretudo um valor honorífico, por certo a educação do príncipe estaria a cargo de personagens menos relevantes, alguns muito cultos;
  • D.Dinis tinha grande interesse pelas letras, logo não será descabido pensar que D.Afonso sabia ler e escrever;
  • Parte obrigatória da sua educação era com certeza o manejo das armas e o montar a cavalo;
  • Há indicações de que D.Afonso gostava muito de caça, actividade muito apreciada pela realeza e fidalguia, ocasião para o treino de situações próximas ao combate guerreiro;
  • Havia abundância de caça grossa, javalis, veados e até ursos;
  • A educação do príncipe resultaria sobretudo da sua vivência na corte e de um precoce acompanhamento do governo do seu pai;
  • Desde muito cedo o seu nome surge associado a iniciativas importantes da política de D.Dinis, ex. no Tratado de Alcanises, em 1297 (D.Afonso teria 6 anos), D.Dinis declara por si, pela sua esposa, pelo infante Afonso e por todos os seus sucessores, a boa-fé com que estabelecia o referido acordo;
  • Esta referência dava solenidade ao acto, pois conferia ao mesmo a intenção de ser mantido e respeitado para além da vida dos monarcas que o subscreviam;
  • Aos seis anos já se negociava o seu casamento com D.Beatriz, filha de Sancho IV, Rei de Castela, nascida em 1293, teria ela 3 0u 4 anos;
  • Pela mesma altura se negociava o casamento da sua irmã mais velha D.Constança com o irmão de D.Beatriz, D.Fernando IV, futuro Rei de Castela;
  • Este mútuo interesse das monarquias peninsulares, tinha no entanto de ser autorizado pelo Papa, porque o parentesco entre os infantes das duas cortes era muito próximo, e o direito canónico proibia casamentos até ao 4 grau de parentesco, e a infanta Beatriz era neta de Afonso X, o Sábio, D.Afonso era bisneto (a mãe de D.Dinis era sua filha bastarda e casou-se com Afonso III); Beatriz era portanto, meia-irmã de D.Dinis!!!
  • A autorização demorou 4 anos a ser concedida, pelo Papa Bonifácio VIII, em 1301. Apesar de D.Beatriz já estar na corte desde 1298 (teria 5 anos);
  • D.Dinis, em 1297, concedeu carta de arras à futura nora, entregando-lhe o senhorio de Évora, Vila Viçosa, Vila Real e Gaia com Vila Nova, seis mil libras de rendimento anual;
  • O Casamento terá ocorrido por volta de 1309, teria D.Afonso 18 anos e D.Beatriz 15 ou 16.

Bibliografia: Sousa, Bernardo Vasconcelos e - D.Afonso IV,  Ed.Temas e Debates