Notes on Medieval History and Others

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Grandes Mulheres da História: D. Teresa de Leão e Castela



·      D. Teresa era filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela e de Ximena Nunes. Pensa-se que terá nascido entre 1078 e 1079. Foi criada junto com a irmã Elvira. 

·   Casou-se por volta do ano de 1095 com D. Henrique, quarto filho do duque da Borgonha, recebendo este o condado portucalense como dote e feudo. A partir desta data Teresa surge ao lado do marido nos documentos que este confirma com Afonso VI. Nos primeiros anos de casados os dois viveram na corte leonesa, embora confirmassem diplomas relativos às terras portuguesas. Os seus colaboradores foram aumentando e aos poucos foram-se aproximando de várias instituições religiosas, com vista a obter o seu apoio no plano político. 

·       Nos primeiros quatro anos de casamento nasceram três filhas: Urraca, Sancha e Teresa. Afonso Henriques nasceu mais tarde, em 1109, quase pela mesma altura em que morreu Afonso VI. 

·  Teresa e Henrique pretendiam a autonomia do condado em relação ao pai/sogro, especialmente quando este escolheu para sua sucessora D. Urraca,  única filha legítima, com a condição desta se casar com Afonso de Aragão.

·   Os condes continuaram a recompensar generosamente todos os que os apoiavam e a outorgar cartas de foral a povoações estrategicamente localizadas, ficando estas ligadas por laços de vassalagem. No segundo semestre de 1110 os documentos da chancelaria são unicamente assinados por Teresa, uma vez que D. Henrique estava na guerra, tentando esta sempre exercer um controlo especial sobre a Sé de Braga.

·    O reinado de Urraca foi conturbado e conflituoso, de desentendimento total entre esta e o novo marido, dando origem a um verdadeiro cenário de guerra civil entre os nobres leoneses, castelhanos, aragoneses e galegos. Na tentativa de obter concessões de ambos os lados, D. Henrique não se comprometeu com nenhum interveniente, começou por se aliar ao rei de Aragão, mas posteriormente aliou-se à cunhada. 

·   Em Setembro de 1111 Afonso Raimundes foi coroado rei da Galiza, o que incluía o Condado Portucalense. 

·    Teresa, demonstrando o quanto estava convencida da legitimidade dos seus direitos a parte da herança do pai, continuou a pressionar a imã a dividir o reino. D. Teresa queria reter Zamora, Salamanca, Ávila e a província da Estremadura, na posse do seu marido. 

·       À morte do conde, em 1112, D. Teresa ficou a governar o condado. 

·    A Galiza era dominada pelo arcebispo Diego Gelmírez de Compostela e pelo tutor de Afonso Raimundes, Pedro Froilaz de Trava, rodeado de uma importante nobreza. A rainha D. Urraca, tentou não perder autoridade e fez aliança ora com uns, ora com outros. 

·    Os barões portucalenses queriam a completa autonomia do condado em relação à Galiza, os magnatas Galegos, pelo contrário, queriam a sua reunificação. 

·     Duas mulheres passaram então a partilhar o poder e dividiram entre si territórios com uma desenvoltura e ambição que se acreditava não ser possível ao sexo feminino. Relação pautada pela ambição e interesse político, pela união de interesses umas vezes, mas na maior parte pelo afastamento e confronto. 

·  D. Teresa prosseguiu a sua política de captação de territórios, outorgando bens e privilégios a pessoas influentes das suas terras. 

·    Até 1121, D. Teresa satisfez as pretensões dos barões portucalenses e manteve-se sozinha. Nos dezasseis anos que acompanhou o governo do marido adquiriu experiência e astúcia. 

·     Entregou o infante herdeiro à criação da família Riba Douro, como era costume na época, e dedicou-se ao governo. Os documentos passaram a ter a sua assinatura enquanto filha do "grande rei e imperador" Afonso VI. 

·    Enquanto Teresa governava as suas terras em paz, continuava a guerra civil entre a irmã e o cunhado, na Galiza. D. Teresa começou então uma complexa política de alianças com o objectivo de reforçar a sua posição perante a irmã. 

·       Foi num dos confrontos armados contra a irmã que Teresa iniciou o seu relacionamento com a família Trava. 

·       Fernão Peres e Bermudo vieram posteriormente auxiliar a condessa na defesa da cidade de Coimbra contra os almorávidas. 

·         A vitória contra os muçulmanos e os importantes apoios obtidos, nomeadamente, uma carta do papa Pascoal II dirigida à "rainha Teresa", terão talvez contribuído para que, a partir de Maio de 1117, passasse a assinar os documentos com o título de rainha. 

·    D. Urraca não aceitou este novo título da irmã, porque só ela era rainha, e também porque a aliança que fizera com o filho não estava a correr muito bem.

·      Em Junho de 1118, Urraca nomeia Paio Mendes para novo arcebispo de Braga. 

·       Em Novembro Teresa apoiou a confirmação do sobrinho de dois homens, numa cidade pertencente a Urraca, 

·      O papa Calisto II, cunhado de Urraca, elevou Compostela a arcebispado, em detrimento de Braga. 

·     Em 1120/21, D. Urraca e Gelmírez invadiram o Condado Portucalense, obrigando D. Teresa a refugiar-se no Castelo de Lanhoso, 10 quilómetros a norte de Braga, mais tarde esta fez uma doação à igreja daquele local.

·     Alguns historiadores consideram que foi por esta altura que os barões portucalenses se começaram a afastar, pois a condessa tinha-se apoderado de território fora da sua jurisdição e tinha-se oposto à mão armada aos reis de Leão e Castela, a quem devia prestar vassalagem, incorrendo no crime de felonia e deitando a perder os direitos senhoriais de Portugal.

·  Quanto aos Trava, Teresa teria conforto em ter o apoio desta poderosa família, especialmente quando a sua autoridade era posta em causa. Ambas as partes ambicionavam chegar ao governo de uma Galiza unida e independente de Leão e Castela – Os Trava eram assim elevados ao nível da filha do poderoso Afonso VI e Teresa ganharia com esta união mais poder e autoridade.

·     Surge em primeiro lugar a sua ligação (não se sabe se casamento) a Bermudo Peres de Trava e em 1121 surge em documentos ligada ao irmão, Fernão Peres de Trava.

·     A pouco e pouco, a nobreza de Entre Douro e Minho foi-se afastando da condessa – O primeiro grupo saiu a partir de 1122, dois anos após a entrada de Fernão Peres na corte. Três anos depois houve mais deserções, o que levou ao isolamento de D. Teresa e dos Trava.

·     Não se sabe exatamente o porquê deste descontentamento, mas pensa-se poderá ter sido pelos poderes dados por D. Teresa ao conde de Trava ou porque o mesmo excluiu estes senhores da chefia no combate ao islão retirando-lhes consequentemente as vantagens materiais e simbólicas.

·    Os nobres portucalenses deveriam assim sentir-se preteridos em favor dos galegos e assim acharam que a única solução era apoiarem os direitos de chefia do condado do único filho varão do conde D. Henrique, o jovem Afonso.

·     Urraca morre em 1126 e Teresa invade os lugares limítrofes da Galiza, submetendo-os violentamente ao seu poder. Assinou então um acordo de paz com Afonso VII de Leão e Castela, no qual o sobrinho lhe concedeu o título de “Regina Portugalinsium”, em troca do reconhecimento da sua coroação.
   
·       Embora admitindo a paz, Teresa fez presumir que não reconhecia a autoridade do novo rei da Galiza, aproveitando um conflito entre este monarca e Aragão, Teresa passou as suas tropas para norte do Minho para defender os seus domínios na Galiza.

·       Recusou vassalagem ao sobrinho, o que levou este, em 1127, a fazer o conhecido cerco a Guimarães, culminando na vassalagem de Afonso Henriques.

·       Mas a paz voltou, pois em 1127, Teresa e Fernão foram assistir ao casamento de Afonso VII com Berengária de Barcelona. E em 1128 confirmou um documento do sobrinho.

·      D. Teresa terá tentado obter o apoio de Afonso VII contra os nobres portucalenses, mas este não terá aceite, pois a condessa pretendia o governo  da Galiza, que lhe pertencia, enquanto Afonso Henriques já lhe tinha prestado vassalagem.

·     A 24 de Julho de 1128, deu-se a já sobejamente conhecida batalha de S. Mamede, onde D. Afonso Henriques, encorajado pelos nobres portucalenses, retirou o poder do condado das mãos da mãe.

·    D. Teresa vê-se assim obrigada a desistir do sonho de governar um reino unido que englobasse a Galiza e Portugal e abandona o condado, junto com Fernão Peres e as duas filhas pequenas de ambos, Sancha e Teresa Fernandes, passando a viver em Límia na Galiza.

·      Terá falecido dois anos após a batalha, em 1130. Documentos (confirmações de doações) provam que Afonso Henriques se terá reconciliado com o conde de Trava ainda antes da morte da condessa.

·        D. Teresa encontra-se sepultada na Sé de Braga, junto do conde D. Henrique.

·    D. Teresa é geralmente considerada negativamente pela cronística e geralmente vista como a mulher que preteriu o filho em favor do amante. No entanto não nos podemos esquecer que na sua maioria, as crónicas medievais são propositadamente desfavoráveis às mulheres, especialmente às que ousavam exercer o poder político que, se considerava na altura ser apenas destinado aos homens. As crónicas são também na sua maioria escritas por clérigos, que tinham uma sobejamente conhecida aversão ao sexo feminino, fonte de todo o pecado, ora Teresa ousou até enfrentar o Arcebispo Gelmírez! A imagem negativa de Teresa foi sobretudo concebida já no século XIII, sobretudo com a Lenda de Egas Moniz, texto que enaltecia a proteção dada ao infante pela nobreza portucalense opondo-a à mãe tirana que mal o assistiu nos primeiros anos de vida.  

·   Assim, de condessa corajosa que assumiu, à morte do marido, a chefia do condado, Teresa passou a mãe desnaturada que queria roubar ao próprio filho a herança paterna! E tudo isto apenas pelas suas relações com os Trava. Assim, o poder de uma mulher e mãe será domesticado e substituído pela virilidade da dinastia afonsina.

·    D. Teresa e D. Urraca lutaram até ao fim pelo poder, que foi também a causa da sua rivalidade. Eram orgulhosas, ambiciosas, inteligentes e astutas e foram, após as mortes dos respetivos maridos capazes que governar, o que só aos homens competia. Desafiaram convenções e puseram em causa estereótipos de comportamento da mulher medieval. Foram por isso grandes mulheres e a sua memória merece ser restaurada.

·   E ousamos relembrar, que, Afonso Henriques não saiu apenas ao pai quando quis tomar para si o poder do condado, o sangue fervoroso de D. Teresa também lhe corria nas veias!


Bibliografia: Oliveira, Ana Rodrigues de – Rainhas Medievais de Portugal, Esfera dos Livros, 2010.




1 comentário:

Josephvs disse...

24 de Julho de 1128??????????